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Ademar Delgado fala sobre a vida e os projetos políticos

Morador de Arembepe e figura de reconhecida competência, Ademar Delgado das Chagas conhece como poucos as engrenagens da administração do prefeito Luiz Caetano, de Camaçari, com quem mantém uma ótima relação política desde o início dos anos 80. Nascido no município de Ibotirama, no oeste baiano, ele tem o apoio da maioria absoluta dos membros do seu partido, o PT, para ser o próximo gestor da cidade sede do Pólo Petroquímico. Além disso, tem a simpatia e preferência do amigo Luiz Caetano, por quem confessa enorme admiração e respeito. Em entrevista ao Portal Luiza Maia, Delgado falou sobre a infância, a obstinação pelos estudos, da vida devotada a Camaçari e, principalmente, das expectativas para a eleição 2012.

SABATINA DO MÊS - 27/08/2012 16:00h


Foto: Nossa Metrópole

 

Portal Luiza Maia – Qual a sua principal lembrança da infância?

Ademar Delgado - A coisa mais forte foi quando mudei de Ibotirama para Wanderlei, onde fui morar na roça. Na cidade a gente tinha todas as limitações, porém quero deixar claro que nunca passei fome ou coisa semelhante. Quando mudei para Wanderlei, simplesmente não dormi a primeira noite. Me encontrei vivendo na fazenda, quando vi que poderia viver naquela liberdade, que poderia viver com muita qualidade naquela vida primitiva. Tudo aquilo marcou muito a minha vida. Senti ali o que é ter plena liberdade. A viagem entre as duas cidades também me marcou demais. Saímos, em 1960, de Ibotirama e só chegamos a Wanderlei em 1961. Foram três dias de viagem entre 30 de dezembro e 1º de janeiro. Na fazenda que moramos, a Fazenda Lagoa Grande, a lagoa que servia água para a nossa casa secou. Então, saíamos todos os dias tocando o gado para dar água e, depois, trazê-los para casa. Conviver com as dificuldades da seca também foi uma coisa marcante. Meus pais tinham uma situação econômica razoável e nós tocávamos o gado, mas gado próprio, da gente. Em casa, meu pai sempre teve uma presença importante e a minha mãe também. Como nasceram os homens primeiro, só depois do quinto filho que apareceu a primeira mulher, nós, os meninos, fazíamos o trabalho doméstico. Tanto é que o meu apelido em Ibotirama era “paneleiro”, porque eu lavava as panelas, os pratos e carregava água do Rio São Francisco pra casa. Minha mãe, por exemplo, ensinou todos os filhos a pregar botão de roupa e a passar ferro em roupa. Naquela época era assim, a criança existia para estudar, a questão central era a educação, mas também trabalhava.



PLM - Mas quando você começou a trabalhar pra valer?

AD - Foi a partir dos 12 anos. Meu pai plantava e tinha uma fazenda - que graças a Deus continua a ser da família até hoje -, da qual eu era encarregado de comandar as tarefas na roça. Liderava os trabalhadores e a melhor forma de comandá-los era estar na linha de frente junto com eles. Aí eu fazia isso: saía capinando, cumprindo as tarefas e chegando sempre na frente deles. Mas sem perder de vista os estudos. Não existia a coisa de meu pai dizer que não iria ao colégio porque tinha que trabalhar. Não! Ele dizia ‘você vai para a escola e depois vai trabalhar’.



PLM - O menino Ademar teve a lembrança forte de ter saído da cidade para a roça. E o jovem Ademar, o que sentiu com a saída do interior para estudar na capital?

AD - Eu vim para Salvador em 1970 fazer o colegial. Estudei de noite no colégio Severino Vieira, trabalhando e morando em pensionato. Essa é uma lembrança triste. Estava acostumado com a fartura da fazenda, de repente me vi em meio a todas as limitações da vida na pensão. Aquilo foi um choque. Outra coisa: cheguei em Salvador e senti, de fato, que estava sozinho na multidão. Lembro que fui assistir o filme Perdidos na Noite”, que conta justamente a história de um sujeito que sai do interior e fica perdido na multidão da cidade grande. Para me comunicar com os meus pais naquela época, mandava uma carta para Barreiras, para o Hotel de Zé Correto, onde morei por um tempo, e de lá, quando meu pai viajava de Wanderlei pra Barreiras, encontrava a correspondência. Só assim ele tinha informações a meu respeito. Porém, mesmo sozinho, sempre soube que tinha um objetivo na vida, que estava enfrentando todas essas dificuldades para poder estudar e ser alguém na vida.



PLM - Você fez política estudantil no colégio Severino Vieira?

AD - Estudava à noite porque trabalhava durante o dia inteiro. Era uma realidade da vida que não me propiciava fazer política. Fiz do primeiro ao terceiro ano colegial no turno noturno. Nessa época trabalhava como datilógrafo, mas logo depois fui promovido a chefe de setor pessoal.

PLM - E como foi a sua experiência na Universidade Federal da Bahia?
AD - Eu vim para Salvador para ser médico, engenheiro ou advogado. Comecei a trabalhar no serviço público ainda durante o colegial, e, em 1972, tive que decidir qual a carreira que iria seguir. Resolvi fazer administração e, assim, permanecer no serviço público. A decisão não teve nada a ver com aquilo que pensava quando cheguei do interior. Em 1973, na Universidade Federal da Bahia, comecei a me organizar no movimento estudantil.



PLM - Fez parte de alguma organização de combate à Ditadura Militar?

AD - Eu era ligado a Inovação, que era a turma que, anos depois, desaguou no PT.


PLM - Conte um pouco sobre os companheiros dessa época?

AD - Aí há um curiosidade. Eu era da Inovação, porém, no campo pessoal, me relacionava melhor com a turma da Viração, que tinha excelente trânsito entre os estudantes de medicina e outros cursos. Entendia que a turma da Inovação tinha as melhores propostas políticas, mas me dava melhor com a Viração. A atual senadora Lídice da Mata é dessa época, assim como o prefeito Luiz Caetano (prefeito de Camaçari e presidente da UPB). Na minha militância estudantil, participei de todas as movimentações ocorridas. Criamos o primeiro Encontro Nacional de Estudantes de Administração (Enead) em 1974. Fomos a Brasília para o Congresso de Administradores em julho de 1974 e, na capital federal, tivemos o saque de criar o Enead. Tinha uma turma do movimento estudantil que era profissional da política, já eu tinha que me virar para conciliar faculdade, trabalho e movimento. Mas, ainda assim, consegui concluir o curso em quatro anos e meio certinho.



PLM - Quando Camaçari entrou na sua vida?

AD - Camaçari surgiu no final de 1979, justamente por conta de uma insurreição. Trabalhava no DERBA quando ACM assumiu o Governo do Estado. Ele congelou os salários [naquela época os reajustes salariais eram de cerca de 20%], aí liderei o movimento de reivindicação salarial lá no Derba. Nesse período, tinha acabado de fazer um curso conhecido como “cursão”, foi o melhor curso que a Bahia já teve em Programação e Orçamento. Para se ter uma ideia, todos aqueles profissionais que trabalharam no Ministério Paralelo criado pelo ex-presidente Lula foram meus professores nesse curso. Um dia Jorge Hage, atual ministro da Controladoria Geral da União (CGU), perguntou se eu não queria ir para Camaçari, que estava precisando de alguém competente para trabalhar no orçamento. Como estava chateado porque não tinha conseguido o reajuste salarial no DERBA, disse a ele que, se pintasse alguma coisa boa. O que eu, entretanto, não sabia é que seria coordenador de programação e orçamento do município. Diante disso, recuei inicialmente a proposta porque pensei que iria ser um técnico do orçamento e não coordenador, que é um cargo político. Não desejava exercer um cargo desses em um governo biônico. Eles disseram que não, que, apesar do cargo ser de confiança, teria que ser desenvolvido por um técnico, mas mesmo assim recusei. Quando fui saindo, me disseram: “Dizem que o sertanejo é antes de tudo, forte. E você incorpora mais uma qualidade: é honesto!”. Depois disso, continuaram insistindo, até que aceitei trabalhar em Camaçari.


PLM - Você chegou em Camaçari e foi logo fazendo política também?

AD - Fazendo política com mais visibilidade a partir da campanha de Caetano, mas atuo politicamente desde que cheguei aqui. Em 1985, na campanha de Caetano, fui para a linha de frente. Nessa campanha não havia recursos para nada. Lembro de uma situação em que tínhamos que dar o lanche às pessoas que estavam trabalhando. Daí me disseram: ‘Ademar, temos uma missão pra você. Nós temos mais de mil pessoas e apenas um saco de pão, um pedaço de mortadela e um pedaço de queijo. Você tem que dar comida a todo esse batalhão de gente’. Sentei num canto e comecei a cortar todos aqueles pães em três ou quatro pedaços. No final das contas todo mundo ficou satisfeito. Quando acabou a convenção, nós ainda tínhamos meio saco de pão e refrigerante para comemorar. Daí... falaram: ‘Caetano, o seu secretário de Administração e Finanças já está escolhido’. E, de fato, ocupei essa pasta na primeira administração do prefeito Caetano.


PLM - São mais de 30 anos de convivência política com Caetano. Qual a principal virtude política dele?

AD - A principal virtude de Caetano é o desapego às coisas pessoais para colocá-las a serviço dos interesses coletivos. Ele tem desprendimento para servir à causa pública. A cabeça dele é voltada para o povo. Além disso, possui uma sensibilidade social enorme, tanto é que agora, com o programa Camaçari Sem Miséria, a gente percebe a empolgação dele.


PLM - Quais os cargos de comando que você exerceu em Camaçari?

AD - Primeiro, coordenador de Orçamentos, em seguida secretário de Gestão e Finanças, diretor- presidente da Limpec, secretário de Planejamento e secretário de Administração. Em todas as gestões de Caetano, sempre ocupei posições centrais, participei – e ainda participo - não só da formulação do governo, mas também, e sobretudo, da administração das situações de dificuldade.


PLM - Além de técnico e político, você ainda consegue atuar nos movimentos sociais, como é o caso, por exemplo, do Pedágio Livre. Como consegue dar conta dessas multitarefas?

AD - Veja bem, eu participei, como liderado e militante, de todos os movimentos políticos que aconteceram no município de 1980 até os dias atuais. Já no movimento Pedágio Livre fui o líder. Ainda hoje tenho uma relação especial com o pessoal do movimento. Mas participei também ativamente do SOS Capivara, quando os governos carlistas queriam fazer o esgotamento sanitário de Camaçari e jogar os afluentes no Rio Capivara, sem a menor preocupação com o meio ambiente. Estivermos também na linha de frente do Movimento Coqueiro Solidário. Lutamos ainda para que a água tratadas chegasse a Arembepe. Sinceramente, não conheço um movimento político, de resgate da cidadania, que eu não tenha participado.


PLM - Você é pré-candidato a prefeito de Camaçari pelo PT com o apoio da maioria absoluta do diretório local, além de ser a pessoa que, depois de Caetano, mais conhece a administração municipal. Qual a grande marca dessa gestão que começou em 2005?

AD - A nossa candidatura representa a continuidade desse projeto que está aí e que nós ajudamos a construir. Então, o nosso governo será o governo da continuidade. Mas nós vamos avançar e adaptar a nova realidade a isso. Nós estamos dialogando e conquistando o apoio de diversas legendas da base aliadas, que já estão fechando com a gente ou sinalizando. O secretariado já está em sua maioria conosco. Temos o apoio dos vereadores da bancada do PT na Câmara Municipal. Também estamos com um bom nível de conversa com os segmentos evangélicos, católicos e com as religiões de matrizes africanas. Vamos aprofundar o diálogo com a sociedade para que possamos construir uma candidatura que unifique o povo de Camaçari, que está satisfeito com todas as avaliações realizadas no governo Caetano e não deseja perder o que já conquistou. Então, estamos andando com muita tranquilidade, dialogando com todo mundo, mas sentindo em cada semblante, em cada sorriso, a esperança renovada de que o projeto comandando por Caetano terá continuidade. O povo de Camaçari teve uma participação importante na construção desse projeto. Portanto, nós temos certeza de que o povo de Camaçari, com a sua inteligência, com a sua sabedoria política, não vai perder o que conquistou, vai querer avançar e melhorar com Ademar!


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