Censo: Perfil da ciência brasileira é cada vez mais feminino

As mulheres já representam 49% dos pesquisadores cadastrados e lideram 45% dos grupos de pesquisa no país. Os dados são do “Censo do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil” referentes a 2008 e divulgados este ano pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT).

O censo é realizado de dois em dois anos desde 1993. Na comparação com os dados anteriores, há uma evolução significativa da participação feminina. Em 1993, eram 39 mulheres para cada 100 pesquisadores.

As áreas predominantes de pesquisa entre as mulheres são aquelas relacionadas aos cuidados, reforçando um papel culturalmente reservado a elas, do mundo privado. Na Fonoaudiologia chegam a ser 90% dos pesquisadores; 87% na Enfermagem; 81% no Serviço Social e 79% na Nutrição.

Em contrapartida, na Engenharia, as mulheres são minoria: 12% na Engenharia Mecânica; 13% na Elétrica; 16% na Engenharia Naval e Oceânica e 17% na Aeroespacial.

Para analisar estes dados, o site www.maismulheresnopoderbrasil.com.br entrevistou Moema de Castro Guedes, demógrafa, professora da Universidade Cândido Mendes e participante de grupo de pesquisa sobre Gênero e Ciência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ela ressalta que, baseado no banco de dados e estatísticas do CNPq, tendo referência apenas o ano de 2008 e as pesquisadoras bolsistas, “vemos que há uma clara prevalência de bolsistas mulheres nas modalidades iniciantes. Em relação ao total de bolsas de Iniciação Científica, o contingente feminino chega a 57%”. No mestrado, são 52%, e, no doutorado e pós-doutorado, 51%, a maioria.

Entretanto, segundo a pesquisadora, “é interessante perceber que entre os bolsistas de produtividade em pesquisa, estrato no qual estão os pesquisadores mais bem avaliados do país, as mulheres passam a representar apenas 34%. Ao desagregarmos este dado por categoria, vemos que as mulheres têm um peso relativo que cai conforme sobe o nível hierárquico. Enquanto entre os pesquisadores avaliados na categoria 2 (mais baixa), as mulheres representam 37%, na categoria 1 A (mais alta), o peso feminino cai para apenas 23,6%. Ou seja, também no campo científico, há uma clara dificuldade de progressão feminina se tomamos como referência a dinâmica masculina. Evidentemente estas distribuições mudam significativamente dentro das grandes áreas e ao longo das séries históricas, por isso é importante a análise separada de cada campo”.

Com relação à expressiva presença de pesquisadoras em áreas denominadas “economia dos cuidados”, como define Moema de Castro Guedes, não há dúvidas que isto demonstra a excelência delas em determinados setores. Mas também mostra que, apesar de ter entrado de forma acentuada em outras áreas, como Economia e Direito, elas permanecem em carreiras culturalmente menos valorizadas nos quais os homens não querem entrar. A professora afirma que a mudança desta perspectiva de gênero na ciência não envolve somente as mulheres, mas também os homens, a quem devemos perguntar por que estão menos presentes nessas carreiras que envolvem os cuidados.

E esta relação com os homens também pode influenciar a carreira feminina. A pesquisadora indaga: como as mulheres podem alcançar patamares de excelência parecidos com os masculinos se os companheiros não tomam para si também as responsabilidades dos cuidados? Por ser a ciência muito meritocrática, exigindo vários anos de estudo, é difícil se dedicar e acumular responsabilidades com filhos e família. E isso tem afetado até a demografia. A fecundidade é baixa entre as mulheres na área de pesquisa, e o adiamento do primeiro filho acaba levando à impossibilidade de uma gravidez ou à escolha pela não maternidade.

Mesmo com todos os desafios, a entrada da mulher na educação e na pesquisa é um processo histórico recente, e as estatísticas podem mudar nos próximos anos ou décadas, com maior predomínio feminino no topo da carreira acadêmica, afirma Moema Guedes.

Além do aumento da presença feminina na ciência, o último censo do CNPq mostra um visível avanço no número de grupos de pesquisa cadastrados (50%), do número de pesquisadores (83%) e de doutores (94%). Estes últimos, dados analisados em comparação com 2002, quando o formulário usado pelo CNPq tornou-se on line, facilitando o levantamento.

Outra constatação feita foi a descentralização regional da pesquisa, tendo as regiões Norte e Nordeste o maior aumento percentual nos últimos 15 anos, 176% e 71%, respectivamente. Mesmo assim, o Sudeste ainda concentra quase a metade da pesquisa no Brasil, 48,8%.


 

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