Garcia: Brasil ganhou visibilidade mundial porque enfrentou desafios

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Em entrevista concedida ao jornal espanhol El Pais, o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, falou sobre como será a postura de líderança do Brasil no cenário internacional e também sobre os impasses regionais e mundiais que o país terá que contribuir para administrar, como é o caso do conflito que envolvem Venezuela e Colômbia.

Leia a íntegra da entrevista:

El País: O Brasil está preparado para assumir o lado escuro – crítica, imagem negativa – de ser um líder mundial?

Marco Aurélio Garcia: Tentamos não assumir essa idéia do Brasil como potência por uma questão do que devem ser as relações em nossa região. Fizemos todos os esforços necessários para que se diminua essa imagem de potência, apesar de isso ter nos criado problemas internos como quando não reagimos a certas atitudes belicosas da Bolívia em relação ao gás ou quando assinamos recentemente um acordo com o Paraguai pela eletricidade.

El País: A liderança não é só como um a vê, mas como os demais a veem. E a percepção é de que o Brasil é uma potência que começa a agir como tal.

Garcia: O Brasil ganhou muita visibilidade, sem dúvida, devido à personalidade de Lula e por sua diplomacia, mas essencialmente porque deixamos de ser o país do futuro e enfrentamos os desafios que temos pela frente, especialmente o da desigualdade. É muito importante que no Brasil os governantes não se embriaguem com os sucessos, porque o país sempre teve altos e baixos, o que sempre foi um desastre total. Finalmente as coisas começaram a mudar, e isso se nota.

El País: E, como se não tivesse suficiente destaque internacional, o Brasil vai ocupar um lugar no Conselho de Segurança da ONU em um momento crucial deste, sobretudo com o assunto do Irã e a energia atômica.

Garcia: Nossa posição nesse assunto é insistir em que a energia nuclear iraniana deve servir para fins pacíficos e deve existir um controle da Agência Internacional de Energia Atômica. Mas, sobretudo, é preciso reduzir a tensão. Obama nos disse que acha importante conversarmos com o Irã. Talvez os iranianos escutem de nós coisas que não escutam de outros.

El País: Obama dá mais atenção a América Latina que Bush?

Garcia: Os movimentos da diplomacia de Obama ainda são contraditórios. Por exemplo, em relação a Cuba e a Honduras. Quanto ao que aconteceu com a Colômbia e as bases [cedidas aos EUA], não nos parece correto. Não podemos impedir que a Colômbia tome suas decisões, mas há necessidade de garantias de que não ocorrerá um desequilíbrio na região.

El País: Mas até agora se considerava que esse desequilíbrio vinha mais de Chávez.

Garcia: Sempre apostamos nas soluções dialogadas: por exemplo, seria muito interessante que a Venezuela e a Colômbia acordassem um sistema de vigilância conjunta de sua fronteira comum. E eu não excluiria um pacto de não-agressão.

El País: E que papel tem o Brasil?

Garcia: Para a monitoração conjunta, ajudaríamos com meios técnicos, como aviões de vigilância.

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