Honduras: Ilegal foi a saída de Zelaya, diz Marco Aurélio Garcia

FOTO: Reprodução
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Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, publicada nesta terça-feira (29), o assessor especial do Governo Lula, Marco Aurélio Garcia, sustenta que o Brasil não se envolveu e sim “foi envolvido”, no conflito entre o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e o governo de Roberto Micheletti.

Marco Aurélio Garcia considerou “um pouco deslocado” o comentário do embaixador dos Estados Unidos na OEA, Lewis Amselem, que classificou como “irresponsável” a volta de Zelaya a Honduras.

Leia a íntegra da entrevista:

O representante dos EUA na OEA disse ontem que foi “irresponsável” a volta do presidente deposto a Honduras. O governo brasileiro, que possui uma importante tradição diplomática, não considera, de fato, a volta irresponsável, considerando a segurança da população?

Os ânimos estão acirrados desde a derrubada do presidente Zelaya. Esse é o problema central: a ruptura da ordem democrática no país e o golpe de Estado. A decisão do presidente Zelaya foi tomada depois de esgotadas praticamente todas as chances de uma negociação. No entanto, os golpistas se mantiveram numa intransigência total e estão tentando empurrar esse tema até as eleições, que não serão reconhecidas pela maioria da comunidade internacional. E essas eleições sim, realizadas nestas circunstâncias, vão mergulhar Honduras em uma situação ainda mais grave.

O senhor considera legítima essa volta, então?

O que foi ilegal e ilegítimo foi a saída dele, esta é a questão fundamental. Aliás, é muito normal que, sendo presidente, ele queira voltar a seu país e mobilizar a opinião pública mundial em favor do próprio restabelecimento da legalidade. Hoje, você tem a confirmação de tudo aquilo que nós vínhamos dizendo há muito tempo: suspensão das garantias individuais, fechamento de jornais. Sinceramente, o comentário do embaixador norte-americano me parece um pouco deslocado.

Ontem, o chanceler de Honduras, Carlos López, ameaçou retirar a imunidade de embaixada brasileira se o ultimato não for atendido. O governo não vê isso com apreensão?

O ditador Micheletti disse que isso não significaria a invasão da embaixada brasileira. Apesar de a palavra dele não valer muito, eu tenho que me ater a ela. E, evidentemente, se houvesse qualquer movimento nessa direção, isso significaria sanções muito rigorosas por parte não mais da OEA, mas do Conselho de Segurança da ONU.

Qual seria uma atitude do governo brasileiro neste caso?

Evidentemente, nós recorreríamos ao Conselho de Segurança da ONU, como já fizemos quando começaram a se desenhar ameaças contra a embaixada brasileira.

O chanceler Celso Amorim já pediu para que Zelaya pare de incitar a população a partir da embaixada, mas é realmente possível conter esse tipo de atitude de quem está disposto a voltar ao governo?

Não li o conjunto dos pronunciamentos do presidente Zelaya, mas salvo um que ele chamava à desobediência civil – que, na maioria das vezes, se manifesta de uma forma pacífica -, não vi declarações em que ele estivesse incitando a violência. Mas nós solicitamos a ele, e achamos que isso ocorrerá, que se abstenha de pronunciamentos para não complicar a situação dele e da embaixada do Brasil.

Por que o Brasil se envolveu de tal maneira em um conflito em Honduras, país com o qual mantínhamos até então relações diplomáticas distantes e que representa menos de 0,05% do nosso comércio bilateral?

O Brasil não se envolveu, o Brasil foi envolvido. Nós tivemos uma participação solidária com o governo constitucional, mas discreta. O que houve foi que, no momento em que o presidente Zelaya decidiu pedir a proteção da embaixada brasileira, fomos colocados no centro dos acontecimentos. Mas as nossas relações não só com Honduras, mas com a América Central de uma maneira em geral, têm sido muito mais próximas durante este governo.

O senhor disse que o Brasil “foi envolvido” nessa situação. O governo brasileiro se arrepende de ter cedido a embaixada para Zelaya e seus seguidores?

De maneira nenhuma, porque quando alguém bate à porta da embaixada brasileira, é recebido, não só porque é uma norma internacional, mas porque há muitas pessoas neste governo que, no passado, bateram em portas de embaixadas e foram recebidas. Nós temos isso muito presente na nossa memória. O asilo político, ainda que não esteja plenamente configurada uma situação de asilo político, é uma tradição na América Latina, que devemos preservar com muito cuidado.

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