O “homem novo” aos olhos de Clara Charf

Foi o que aconteceu e sua vida nada teve de comum. Companheira de um dos mais emblemáticos líderes da esquerda brasileira, Clara viveu as agruras da clandestinidade, viu o sol nascer por trás das grades e foi obrigada a se exilar. Mas quem a vê, hoje, nos seus 86 anos, não enxerga nesta simpática senhora uma gota de rancor em relação às durezas pelas quais passou. Aliás, se surpreenderá com o bom humor e o brilho nos olhos desta sra., uma testemunha ímpar da história deste país.

Mais do que apenas mulher de Marighella, Clara se provou, ela própria, uma ativa militante. Atuante defensora da causa da mulher, faz sua voz ser ouvida seja  no PT, seja no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, da Secretaria Especial de Política para as Mulheres da Presidência da República, seja na Associação Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, ou na Comissão de Mortos e Desaparecidos.

Neste 8 de março em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, entrevistamos Clara. Uma prazerosa tarefa, aliás. E quem ler a entrevista abaixo, notará que, além de dar respostas, ela inverte o jogo, é adepta a perguntas e a questionamentos. Como não respondê-los? Confira, a seguir, uma deliciosa conversa com esta grande companheira.

[José Dirceu] Você diria que o Brasil é um país machista?

[ Clara Charf ] Não conheço nenhum país que não seja. Agora, isso não quer dizer que todas as pessoas neste ou naquele país sejam machistas. Essa é uma questão de indivíduos. Muitas pessoas nem sabem o que significa ser machista. Quando eu comecei a militar, machista era um adjetivo que eu nunca tinha ouvido. Existia apenas a noção do “homem mandão”, lá no Nordeste, quando comecei a despertar para algumas coisas.

Lembro que havia uma vizinha nossa, portuguesa, que tinha um marido que era um malandro. Ela ficava o dia todo lavando o terno dele, lavando e passando roupa, cuidando das filhas, fazendo de tudo… Ele saía, belo e formoso, ela só conversava com a minha mãe, por cima do muro. Nunca ia a lugar algum.

Eu ia a pé para o trabalho – era bancária naquela época – e um dia, de repente, olho e lá estava o marido da dona Helena, de terno passado, com chapéu, agarrando uma mulher, em público, ao meio dia. Fiquei possessa! Ao voltar à noite, eu soltei: “Mamãe, eu não vou me casar nunca”.

[Dirceu] Como o machismo se manifestava na sua juventude?

[Clara] Eu achava que havia alguma coisa errada, mas não existia para mim essa palavra “machista”. Eu a aprendi depois, no processo político. Eu achava que não dava para ser daquele jeito. Hoje tem meio de comunicação, há muita discussão. Mas, naquele tempo, era o homem que mandava em casa e a mulher se submetia, inclusive, à situação de o homem ter mais de uma mulher. E desde aquela época, eu comecei a lutar contra as injustiças. Eu achava que todos deveriam ser iguais. Também conheci a irmã da Clarice Lispector (Tânia) e outras mulheres independentes, mas os homens sempre davam as regras.

[Dirceu] Mas o Brasil mudou. Hoje nós temos uma mulher presidenta, com várias ministras, deputadas.

[Clara] Mudou tudo, a maneira de viver. Veja, no Brasil hoje, a quantidade de mulheres que ocupam cargos públicos, o papel que elas têm em casa, na educação. Eu tenho 86 anos e quanta coisa eu já vi! Agora, tem o machismo escondido em cada homem. Eu, por exemplo, lido com essas moças cuidadoras que vão, em casa, ajudar. Uma delas tem um marido que é trabalhador da construção. Pelo que ela conta, esse homem é o companheiro mais maravilhoso que ela poderia ter. Trabalha a semana inteira na construção, ela cuida das pessoas e depois eles se encontram. Ele faz tudo em casa junto com ela. É um operário, com pouca instrução, mas no dia a dia dele, o seu comportamento em casa é de uma pessoa não machista.

[Dirceu] Há diferença entre os homens da militância e os demais?

[Clara] As organizações, em geral, refletem a sociedade. Já conversei muito, por exemplo, com as mulheres do Movimento dos Sem Terra (MST) e algumas contavam que seus companheiros as ajudavam, outras que não… Claro que há pessoas que avançaram politicamente. Então, essas não podem ter o comportamento igual ao de uma pessoa que nunca militou, ou que nunca se dispôs a defender uma causa por alguém. Pode-se dizer que quem tem mais cultura é menos machista? Não. De forma alguma. Até hoje existem homens que, mesmo ocupando cargos públicos, mesmo sendo formados em universidades, permanecem machistas.

[Dirceu] Fale um pouco do “caso Dilma”, a ascesão da 1ª mulher à Presidência da República no Brasil. Como o vê?

[Clara]  Já é muito grande o sentimento de que a mulher precisa e tem condições de ocupar cargos públicos. Ela é tão ou mais competente que o homem para isso. Mas ainda há muitos homens que ficam danados da vida ao verem uma mulher sendo nomeada. E aí, surpresa!, dá certo. Foi o caso da Dilma. No começo houve quem achasse que ela não iria dar conta. Aí, começaram as histórias do período da prisão, de luta e de coragem… Eu vejo a quantidade de homens que mudaram de posição a respeito dela. A prática faz cair muitos slogans e ditos. Há coisas que só a vida prova.

Será o mesmo com a Eleonora Menicucci (ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres). Ela não tem papas na língua. Teve muita coragem ao assumir publicamente que sua filha é gay. É algo muito corajoso. Esse tipo de exemplo ajuda a muitas mulheres – que têm acanhamento de se pronunciar – a se manifestarem.

Machismo: algumas coisas mudaram, outras não

[Dirceu] Há muitas profissões em que já há mais mulheres do que homens. Fui recentemente a um hospital e, lá, para cada médico havia uma médica. Mas, do seu ponto de vista, no cotidiano das pessoas, em casa, no trabalho, na rua, o que mudou para as mulheres?

[Clara] Algumas coisas mudaram e outras não. O que tem de novo é a discussão que se faz hoje sobre o papel da mulher na sociedade. Nas universidades, em alguns programas de TV, em debates em algumas escolas. Mas ainda é muito pouco. Por outro lado, veja quantas mulheres trabalham fora de casa, ou estão dentro de casa trabalhando, produzindo, escrevendo, compondo… O problema é que a mulher que sai de casa de madrugada, toma ônibus, trem, metrô, vai para o trabalho, volta tarde e, ao chegar em casa, tem muitas coisas para arrumar. Outras chegam e o marido já fez a janta e já arrumou a casa. Essas são novidades que no meu tempo não tinha. Eu nunca vi um homem ajudar em casa quando menina. Não me lembro dessa cena.

[Dirceu] Você já viveu em Cuba, uma sociedade socialista. Como era essa questão por lá?

[Clara] Cuba, a primeira sociedade socialista da América… Eu já era viúva e trabalhava com tradução ao lado de pessoas que eram casadas. Pelo que as cubanas contavam, os maridos dividiam as tarefas domésticas com elas. Ao ponto de, um dia, um rapaz ter chegado atrasado, dizendo que havia tido problemas em casa. Sua criança estava doente e tal. Mas o problema não era esse. Ele havia se atrasado por que teve de fazer as coisas que normalmente fazia e porque a mulher havia se recusado a ajudá-lo. A diferença em Cuba é que essas coisas eram discutidas ali, no trabalho.

[Dirceu] Quais bandeiras fundamentais na sua visão devem ser empunhadas para as mulheres hoje?

[Clara] A igualdade, a justiça, o respeito à figura da mulher, a igualdade no trato com os filhos, a divisão do trabalho também dentro de casa. Na prática, é muito difícil os homens se disporem a ajudar em casa. Pelo menos os que eu conheço. Zé, você cozinha?

[Dirceu] (risos) Cozinho.

[Clara] Cozinha bem?

[Dirceu] Faz tempo que não cozinho, mas quando eu morava em Cuba, aprendi a cozinhar. Quando preciso, eu faço de tudo. Mas estou mal acostumado… E você, Clara? Como era a divisão das tarefas na sua casa?


Marighella, exemplo do homem novo

[Clara] O Jô Soares uma vez me perguntou como era viver na clandestinidade. Marighella me propôs uma vez que passaria o escovão no chão, pois não havia enceradeira naquele tempo. Mas não era só. Um dia, quando eu passava roupa ele me olhou e disse: “Não passe a roupa quando eu não estiver em casa. Quero ler em voz alta para você quando estiver passando roupa”. Esse era o Marighella. Você acredita nisso? Nas casas em que ele morou clandestino, as companheiras não queriam que ele fosse embora. Ele inventava brinquedo para as crianças, para aliviar a companheira que tinha as tarefas da casa. Esse era o exemplo do homem novo. O comportamento do Marighella era esse, com todo mundo e em todos os lugares em que ele viveu.


[Dirceu] Ele dava o exemplo…

[Clara] Fazíamos muitas reuniões na clandestinidade, preocupados com a vizinhança, porque ninguém podia desconfiar o que se passava. E tínhamos de deixar tudo arrumado nas casas usadas… Certa vez, em uma reunião com a juventude, o Marighella pegou os meninos que comiam banana e deixavam a casca por ali e disse: “Olha, isso não pode ficar aqui. Primeiro, por respeito às pessoas que emprestaram a casa. Segundo, porque é muito folgado vocês comerem, deixarem aqui para a pessoa que chegar do trabalho limpar”. Todo o pessoal da juventude ficava admirado.

[Dirceu] Clara, o povo brasileiro e a juventude têm a dimensão da coragem e de quem foi Carlos Marighella?

[Clara] O povo brasileiro, 200 milhões de habitantes, é muita gente… A maioria da população não tem essa dimensão, não. Mas, já cresceu muito o conhecimento sobre a luta de Marighella. Vimos isso, agora, no centenário. A quantidade de gente impressionadíssima com a história dele. Chegaram a me levar lá na Bahia para dar uma entrevista a um programa de rádio para falar sobre ele. E isso teve uma repercussão enorme. Também todas as emissoras deram os acontecimentos do centenário, saíram artigos, o próprio filme (“Marighella”, da diretora Isa Grinspum Ferraz). Essa exposição toda pegou um público que não estava acostumado a ter informações sobre ele. Isso, sem falar das atividades do Museu da Resistência. Desde que fizemos a primeira exposição sobre ele lá, muita gente de classe média o conheceu, e muitas escolas levaram estudantes. Mas, a grande maioria do povo não sabe nada sobre ele.

Ainda assim, uma das cuidadoras que trabalha em casa disse que estava sentada com o marido vendo TV e, de repente, houve um comentário sobre Marighella. Como já havia ouvido esse nome lá em casa, ela resolveu prestar atenção. O marido, então, comentou: “Nossa senhora! Mas esse homem que é o marido da dona Clara?” Ele levou o maior susto e achou o máximo. Ela também viu aquela novela “Amor e Revolução”, no SBT. Essa teve uma repercussão ainda maior.

[Dirceu] A mídia trabalhou contra a novela.

[Clara] Mas muita gente passou a comentar. Apesar do horário da novela que era péssimo – onze da noite é muito tarde. Marighella era de uma capacidade criativa impressionante. A juventude o adorava por causa das coisas que ele fazia. Jamais foi bruto com as pessoas, pelo contrário. Claro que não era santo, mas era muito boa gente, tinha uma capacidade de comunicação muito grande.  Agora, uma novela de costumes ou política como aquela não entra na Globo.

[Dirceu] A Globo até fez uma sobre Juscelino. Se pegar umas 100 novelas e mini-séries da Globo, há apenas umas 20 em que ela abordou fatos históricos e não os deturpou tanto. Aquela sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi boa, por exemplo. E temos os filmes brasileiros. O problema é que apenas 50 mil, 100 mil pessoas os assistem. E, às vezes, são filmes espetaculares.

[Clara] Há um trabalho muito legal que está sendo feito no Museu da Resistência. Os professores estão levando seus alunos para ver como era o lugar e onde o pessoal era torturado. Os alunos ficam horrorizados, impactados. O Museu está representando um papel muito importante neste sentido. Só que é insuficiente para resgatar a história. Nós militantes e o partido temos que fazer um investimento nos cursos de História, ter um trabalho dirigido aos professores.

Mas, me diga você, Zé. Você acha que o PT é um partido machista?

[Dirceu] Mudou bastante com os anos. Independente de se havia ou não machismo, já na fundação do PT as mulheres ocupavam um papel importante no partido. E, agora com os 50% obrigatórios nas direções e nas chapas… A lei vai impor uma mudança. Falta uma presidenta do PT, uma mulher, já que elas já estão nas secretarias. Mas já contamos com mulheres na liderança da Câmara e do Senado e há as ministras no governo…

[Clara] Agora, ainda é muito difícil no dia a dia, na relação do partido. A pessoa, às vezes, se sente tolhida.

[Dirceu] Eu comecei ao lado de muita liderança mulher no movimento estudantil. As presidentas do Centros Acadêmico da Filosofia da Universidade de São Paulo. Tínhamos a Iara Iavelberg, a Helenira Resende de Souza Nazareth e muitas outras. O ano de 68 foi a favor da liderança das mulheres e isso coincidiu também com a pílula, a independência das mulheres que passaram a estudar e a trabalhar fora de casa. Mas, voltando à luta das mulheres. Como você acha que devemos avançar mais nesta questão?

[Clara] Precisamos de outras formas de atuação. Por exemplo: uma organização não governamental (ONG) da Suíça entrou em contato com a Associação de Mulheres pela Paz dizendo que queria fazer uma proposta para que o prêmio Nobel fosse concedido a mil mulheres de diferentes países. E nos pediu que indicássemos quais brasileiras concorreriam a um Prêmio Nobel da Paz em conjunto. E nós desenvolvemos um trabalho que surgiu da discussão sobre como seria a mulher que deveria ganhar o prêmio. Mesmo que esse modelo não existisse no código do Prêmio Nobel, nós resolvemos tentar… Primeiro, debatemos o que é a luta pela paz, para podermos propor que mulheres deveriam concorrer a esse prêmio. Para mim, a luta pela paz é a luta diária, a luta no dia-a-dia, no miúdo, que faz o bem à humanidade. Nós, então, formamos um grupo, uma comissão composta de várias mulheres, com dois homens – Leonardo Boff e Inácio de Araújo.

[Dirceu] E no que deu essa iniciativa?

[Clara] Selecionamos os nomes enviados pelas organizações aqui do Brasil. Chegaram as propostas, uma mais interessante do que a outra. Como, por exemplo, uma mulher no interior de Goiás, (a quilombola descendente de Kalungas, Mãe Procópia) lá dos canfudós, negra, semi-analfabeta, que, morando ali, resolveu, no meio de uma pobreza total, que todo mundo da sua região deveria aprender a ler. Mas, ela própria não sabia ler. E batalhou até conseguir uma pessoa que soubesse ler e escrever e levou essa pessoa para ensinar na região. A história é linda. Essa mulher foi uma das indicadas na nossa lista. Tinha cada história impressionante. E em todas havia a participação do marido, do filho, de companheiros que têm um comportamento a favor das mulheres e cujas histórias não saem na televisão.

Nosso país pré-selecionou 230 mulheres e, como a proposta era de elegermos mil em todo o mundo, a cota para o Brasil era de 53 mulheres. Entre elas teve a cientista Mariana Katz, a médica portuguesa de São Paulo, Albertina Duarte… Teve  mulher negra, mulher formada, de um tudo. E foi feito um livro com as mil mulheres indicadas ao Prêmio Nobel da Paz. Mas o comitê do Prêmio Nobel não aceitou a sugestão de um prêmio conjunto. Seus organizadores ficaram muito admirados com a proposta, mas não deram o prêmio às mil. Queriam que fossem indicadas apenas uma ou duas pessoas por país.


Comissão da Verdade é uma vitória

[Dirceu] Clara: você, que viveu na clandestinidade e testemunhou a trágica trajetória de tantos companheiros durante os anos da ditadura militar, que opinião você tem sobre a Comissão da Verdade? Como ela pode contribuir e no que deve avançar?

[Clara] A primeira coisa a dizer sobre a Comissão da Verdade é que, finalmente, ela está constituída. É o primeiro passo. Acho isso ótimo. Ela já foi formalmente aprovada. O problema é que ainda não sabemos os nomes que a comporão. Essa é a polêmica do momento.

[Dirceu] Com a volta do Congresso isso deverá ser encaminhado…

[Clara] Para mim, a Comissão da Verdade já é uma vitória. Na medida do possível, eu vou às reuniões de Comitê da Anistia no Museu da Resistência. E há uma discussão se ela deve apenas apontar os casos (de repressão e crimes durante a ditadura) ou se ela deve punir (os responsáveis). É só dizer que o cara matou, esfolou, fez isso ou aquilo? Ou vai condenar, ou localizar as pessoas?

[Dirceu] Qual é a sua posição a respeito?

[Clara] O papel da Comissão não é de punição. Isso é algo muito difícil dela cumprir. Seu papel será mexer em tudo o que for necessário até chegar lá no fundo, fazer aflorar a verdade. As punições têm de ser feitas por outro caminho. Não sei se pela própria Justiça. Agora, só o fato de localizarmos as pessoas (envolvidas nos episódios de crimes e da repressão) já é importantíssimo. Você viu o caso do fotógrafo do Vladimir Herzog? (Silvaldo Leung Vieira, do Instituto de Criminalística que registrou a cena montada do suposto suicídio de Herzog no DOI-CODI, no antigo 2º Exército em São Paulo). É importantíssimo ele ter feito mais esta denúncia. Se você pega pessoas como ele que têm esses segredos…

[Dirceu] Devem aparecer centenas e milhares…

[Clara] Acho que o papel da Comissão da Verdade, primeiro, é o de localizar, fazer aflorar, estimular a descoberta da verdade. Isso dá fazer e será bom, porque muita gente que está acuada,vai poder falar se esse caminho foi aberto. Ela tem de abrir o espaço para que as pessoas tenham a coragem de dizer, de contar. Dizer essas coisas não é uma vergonha, é coragem. Esse fotógrafo foi corajoso.

[Dirceu] Tem, ainda, os documentos históricos para analisar sobre o período da ditadura. São milhões e milhões e muita coisa será encontrada nesses documentos…  Mas queria, agora, tratar de outro assunto. Como você descreve o que é liberdade a um jovem que nasceu sob o regime democrático?

[Clara] Muitos jovens têm na cabeça que liberdade é a liberdade sexual. A maneira como os meios de comunicação trabalham o conceito atrapalha os jovens a compreendê-lo. É preciso entender a liberdade em todos os seus aspectos. Liberdade para trabalhar, para estudar. Liberdade para viver, amar, morar. É você ser livre para se mover, para criar o modo de vida que você concorda. É ter liberdade de expressão… É poder dar a sua opinião, intervir na vida, se juntar com outros jovens e realizar coisas em benefício – não só da vida do seu grupo, do lugar em que você mora – mas da sociedade em geral. Isso dá muita alegria e tudo isso é liberdade. No tempo em que você fez, Zé, todas aquelas coisas na universidade, na luta estudantil, você estava realizado. Eu achava tudo aquilo o máximo.

[Dirceu] E era mesmo…

Juventude hoje: há um individualismo maior

[Clara] Eu converso muito com os jovens. E fico observando com eles se comportam. Todos decidem por conta própria o que querem fazer. Mas há um individualismo maior. Ao discutirem a liberdade, não o fazem com o viés do trabalho coletivo. Basta ver os partidos políticos de hoje. Eu não acho que eles estimulem o trabalho coletivo…

[Dirceu] No Brasil, tem partido e Partido. O PSDB, por exemplo, recontando as suas filiações, apertando, apertando, descobriu que não tem muitos nomes. Os partidos com mais vida como o PC do B, o PT, o PDT, o PSB acordaram, agora, para essa questão da juventude. No caso do PT isso se deu principalmente nos últimos 3, 4 anos.

[Clara] Eu não tenho filhos jovens em casa. O Carlinhos já passou dos sessenta. (risos) Mas eu converso muito com as pessoas para conhecer mais essa juventude. E fico admirada como esses garotos decidem tudo. Um dia, o filho da Isinha (Isa Grinspum Ferraz, cineasta, sobrinha do Marighella) chegou em casa e disse “estou trabalhando no jornal”. Ele leu que estavam procurando gente, foi lá, fez um teste e passou. A decisão nem foi discutida em casa. O rapaz formou uma banda com um grupo de pessoas e toca.

Já o filho do meu sobrinho, Jorge, virou cineasta, dirige filmes e trabalhou no filme Marighella. Foi uma das pessoas que participou da direção do filme. Eles se juntam, arranjam espaço para tocar seus projetos e escolhem suas carreiras. Esses são os filhos de classe média que estudaram. Já, os jovens operários, eu acompanho pelos relatos das meninas que trabalham comigo. Um filho de uma delas trabalha na construção e estuda de noite. O outro, mais jovem, dorme até mais tarde e desperta quando todo mundo vai dormir. Fica vendo TV, faz coisas na internet, e depois volta para a cama.

Os meninos da classe média são livres para sair, dançar até sabe lá que horas. E o jovem mais pobre vai ao boteco, à escola de samba. Estão fazendo coisas lindas nas escolas de samba. O que me preocupa é como a sociedade e a política do PT dirigida à juventude podem dar uma perspectiva de estudo e de trabalho para esse jovem. Como se faz isso?

[Dirceu] Dando oportunidade para imensa maioria por meio do estudo. E ele tem melhorado muito nos últimos anos. Hoje até tem oferta de trabalho. Agora, o impeditivo para o jovem trabalhar é muito mais a falta de qualificação do que a vaga de emprego.

[Clara] Muito do que a juventude quer, ela não tem acesso por falta de recursos.

[Dirceu] O transporte já consome o salário do jovem. Comida, material para estudar, só nesses três itens já vai todo o dinheiro. E a diversão e o lazer não são gratuitos… O Ministério da Cultura deveria ter um orçamento três vezes maior, porque faz parte da política de bem estar social. 

[Clara] Eu não parei ainda para pensar quais formas o PT deveria adotar para estimular o trabalho cultural…

[Dirceu] Este é um problema sério. Sedes de partidos deveriam ser sedes culturais e sociais. Foi assim que os centros acadêmicos começaram durante a ditadura. Iniciaram sua ação pela promoção da cultura. Logo o regime proibiu cineclube, feira de livros… Eles perceberam que ali estava o "ovo da serpente". Acho, por exemplo, que PT deveria ter feito atividades dos cem anos de Apolônio de Carvalho em todo o Brasil.

[Clara] Apolônio sempre gostou de conversar muito com os jovens. Era uma figura simpática, amoroso com as pessoas, nunca foi pedante. A Renée (de Carvalho, sua mulher), inclusive, está admirada porque, onde quer que ela vá, as pessoas têm demonstrado um carinho enorme por ele.

[Dirceu] Voltando ao Marighella… Ele disse que para ser livre é preciso ter a coragem de dizer. O que falta ser dito hoje no Brasil, Clara? O que Marighella diria hoje?

[Clara] Na época em que ele disse isso os Estados Unidos exerciam um papel dominador sobre o Brasil. Era um tempo de perseguição e repressão. Acho que, hoje, ele se dirigiria fundamentalmente à juventude. O Marighella era uma pessoa muito sensível ao contato com os jovens. Ele fazia versos, desenhava para eles. E há muitas histórias dele com a juventude. Como aquela de como o comunismo chegou na Bahia.


"O comunismo chegou à Bahia"

[Dirceu] Essa eu não conheço…

[Clara] Na época do Integralismo (1935-37), Marighella e alguns jovens compraram cartolina e desenharam a foice e o martelo. De noite, quando todo mundo dormia, eles subiram nos postes e colaram os cartazes por toda Salvador. No dia seguinte, quando veio a claridade, todo mundo viu os postes com a foice e martelo. E os meios de comunicação deram as manchetes: “o comunismo chegou à Bahia”. Marighella, apenas com cartazes, levou toda Salvador a discutir o comunismo.

[Dirceu] Que maravilha…

[Clara] Ele tinha um dom muito grande. Uma capacidade incrível de criar as coisas e de se comunicar por todos os meios. Até em outras línguas. Certa vez, a direção do partido disse que ele teria de viajar para o exterior. Ele não sabia falar inglês e não poderia dizer para mim onde iria, mas me pediu para treinar o inglês com ele. Ele não poderia falar a esse respeito naquele tempo de clandestinidade. Perguntei quanto tempo ele teria para treinar. Era apenas um mês. A partir daquele momento, só nos falamos em inglês. E ele era um horror… Eu dizia "hat" (chapéu), ele repetia "let" (deixar). Eu dizia "land" (terra) ele repetia "hand" (mão). Suei frio para ele treinar esse ingles.

Quando ele voltou da viagem, eu havia sido presa em Campinas, por causa de uns livros. Finalmente, quando eu fui solta, a gente se encontrou e ele me contou que tinha ido para a China. Quis saber como ele tinha se saído com seu inglês. E ele respondeu: “foi ótimo, os chineses também não acertavam. Eu não sabia dizer hand e eles também não”, disse ele rindo.

[Dirceu] Por fim, nos conte como foi que você despertou para a esquerda sete décadas atrás?

[Clara] Quando eu era adolescente, no Recife, o tio daquele fotógrafo Bob [Roberto] Wolfenson, o Jacó, era um grande revolucionário. E eu ouvi meu pai falando à minha mãe que o Jacó estava preso. Passou um tempo, meu pai contou que ele havia sido solto e que o seu pai, Davi, havia nos chamado para tomar um chá. Então eu perguntei ao Jacó, “vem cá, por que você esteve preso?” Não podia falar a respeito naquela hora [da festa]. Passaram-se alguns dias e ele foi lá em casa me contar que havia sido preso porque era comunista. Eu nem sabia o que era isso. E ele me disse: “Vai chegar o dia em que todos terão aquilo que precisam: roupa, estudo, casa… Terão tudo o que a pessoa necessitar. Ninguém vai ser perseguido, nem vai roubar do outro”.

Ele me explicou que comunismo era uma sociedade onde todos são iguais, mas, como todo mundo não poderia ter a mesma coisa, as pessoas fazem troca. “Por exemplo, você tem um livro e eu não tenho, eu troco com você o livro por outra coisa, uma blusa, uma camisa…” Eu virei comunista naquele dia. Eu não podia falar isso para os meus pais, que eram muito simples, mas me formei assim. E isso marcou a minha vida.

 

Entrevista extraída do blog de Zé Dirceu

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*