Poeta Pedro Tierra homenageia Dilma Roussef

500 anos esta noite
Pedro Tierra

De onde vem essa mulher que bate à nossa porta 500 anos depois?
Reconheço esse rosto estampado em pano e bandeiras e lhes digo:
Vem da madrugada que acendemos no coração da noite.
De onde vem essa mulher que bate às portas do país dos patriarcas em nome dos que estavam famintos e agora tem pão e trabalho?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
Vem dos rios subterrâneos da esperança, que fecundaram o trigo e fermentaram o pão.
De onde vem essa mulher que apedrejam, mas não se detém, protegida pelas mãos aflitas dos pobres que invadiram os espaços de mando?
Reconheço esse rosto e lhes digo: vem do lado esquerdo do peito.
Por minha boca de clamores e silêncios ecoe a voz da geração insubmissa para contar sob sol da praça aos que nasceram e aos que nascerão de onde vem essa mulher.
Que rosto tem, que sonho traz?
Não me falte agora a palavra que retive ou que iludiu a fúria dos carrascos durante o tempo sombrio que nos coube combater.
Filha do espanto e da indignação, filha da liberdade e da coragem, recortado o rosto e o risco como centelha: metal e flor, madeira e memória.
No continente de esporas de prata e rebenque, o sonho dissolve a treva espessa, recolhe os cambaus, a brutalidade, o pelourinho, afasta a força que sufoca e silencia séculos de alcova, estupro e tirania e lança luz sobre o rosto dessa mulher que bate às portas do nosso coração.
As mãos do metalúrgico, as mãos da multidão inumerável moldaram na doçura do barro e no metal oculto dos sonhos a vontade e a têmpera para disputar o país.
Dilma se aparta da luz que esculpiu seu rosto ante os olhos da multidão para disputar o país, para governar o país.

Brasília, 31 de outubro de 2010
 

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